A Comunicação Não-Violenta e o resgate de uma utopia

No início dos anos 60, a partir de seu trabalho com grupos de ativistas de Direitos Civis, mediando conflitos decorrentes da segregação racial no Sul dos Estados Unidos, Marshall Rosenberg deu início a uma pesquisa que buscava desenvolver um processo de comunicação baseado na empatia, mais tarde denominado por ele de Comunicação Não-Violenta (CNV).

A teoria de Rosenberg baseia-se na ideia de que todos somos compassivos por natureza, e que apenas recorremos à violência ou a comportamentos prejudiciais aos outros quando não reconhecemos estratégias mais efetivas de ter nossas necessidades atendidas. A CNV supõe que se as pessoas conseguirem identificar suas necessidades, as necessidades dos outros e os sentimentos envolvidos, a harmonia entre elas pode ser alcançada.

No processo da CNV, Rosenberg nos convida a um exercício na interação com o outro a partir de quatro componentes: 1) observação; 2) sentimento; 3) necessidade; 4) pedido. Na observação, somos convocados a colocar nosso foco nos fatos, no que está acontecendo, sem avaliar e sem fazer julgamentos. Em seguida, devemos identificar como nos sentimos em relação ao fato em questão, e tentar reconhecer nossas necessidades ligadas a esses sentimentos. Por fim, devemos expressar para o outro o que precisamos, em forma de um pedido. A auto-empatia, o receber empaticamente e o expressar honestamente são os três modos da CNV através dos quais se dá essa dinâmica.

Ainda que promovida como um processo de comunicação idealizado para melhorar a conexão nas relações, a CNV também tem sido interpretada como uma visão de mundo, uma vez que é pensada em três esferas que englobam além do universo interpessoal,  o intra pessoal e o sistêmico (social), propondo formas práticas de intervir nestes três níveis, através de conceitos como autoconhecimento, sistema de apoio, cultura cooperativa/ colaborativa e corresponsabilização social.

Na era da informação, onde as possibilidades de comunicação e interação entre as pessoas aumentaram vertiginosamente, o entendimento seguiu o fluxo inverso, quase sempre impossibilitado ou impregnado por ruídos, comprometido por uma cultura que celebra o Eu (em detrimento do coletivo) e que semeia hábitos de pensar e de falar que levam, consequentemente, à violência, em todas as suas formas.

Assim, hoje, mais do que nunca, a CNV apresenta-se como um discurso necessário e, felizmente, sua disseminação tem aumentado nos últimos anos. Multiplicam-se os grupos dedicados ao exercício do processo; profissionais recorrem aos seus princípios para atuar em cenários diversos de resolução de conflitos (do político ao familiar), pais exercitam sua dinâmica na educação dos filhos.

Frente o desmantelamento das relações e do sistema que vivemos atualmente é reconfortante perceber que existe um movimento contrário, que ainda aposta nesse resgate da utopia da possibilidade de entendimento entre os homens e busca, ainda que com limitações, recursos para tentar estabelecer uma conexão mais genuína com o outro e com o mundo.

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