“Her Story” e uma questão do feminino na transexualidade

Produzida para a web e lançada no início de 2016 no YouTube, a série americana “Her Story” mostra os encontros e desencontros na vida de duas amigas transexuais que vivem em Los Angeles, e diferentemente de séries e filmes recentes de sucesso como “Transparente” (Amazon) e “A Garota Dinamarquesa”, escritos e interpretados por pessoas cisgênero, tem mulheres transexuais como protagonistas e um enredo inspirado em suas próprias experiências de vida.

Jen Richards, importante ativista da causa transgênero nos Estados Unidos, assina o roteiro com a também atriz e co-star Laura Zak. Indicada ao Emmy na categoria Short Form Series, a série tem sido sucesso de público e crítica, afirmando seu pioneirismo e confirmando a relevância da voz da comunidade no retrato das narrativas que abordam suas questões.

A história tem como foco a vida das amigas Violet (Jen Richards) e Paige (Angelica Ross) e conflitos amorosos relacionados a sua condição de mulheres transgênero. Enquanto Paige, advogada bem sucedida, tenta lidar com inseguranças ao iniciar um relacionamento com um homem cisgênero, Violet, garçonete nova na cidade, fica confusa ao se perceber interessada por uma jornalista com quem inicia uma amizade.

É desse último encontro que nasce sua linha narrativa mais interessante. Primeiramente, ao mostrar uma mulher transexual se interessando por outra mulher, a série começa por derrubar a presunção muito frequente de que mulheres transexuais são heterossexuais, ou seja, se interessam por homens, necessariamente. Presunção fruto da ideia popular, contudo, equivocada de que identidade e orientação sexual caminham juntas. Porém, é na maneira como Violet se questiona sobre sua condição de mulher diante do sentimento despertado pela nova amiga que a série nos mostra uma nuance desse conflito de identidade pouco visto em narrativas similares.

Logo no primeiro episódio, descobrimos que a personagem vive um relacionamento com um homem e se auto declara heterossexual, o que, no entanto, é logo colocado em dúvida pela melhor amiga que afirma não acreditar nisso. O conflito central de Violet na história é se perceber interessada por uma outra mulher e ter que lidar com o questionamento que esse sentimento lhe coloca sobre sua própria feminilidade.

Apesar de ter feito a transição de gênero e ser, fisicamente, uma mulher, o roteiro dá indícios de que Violet não chegou a fazer a cirurgia de redesignação sexual e que, aparentemente, não é algo que considera. Assim, ao contrário do conflito vivido pela protagonista de “A Garota Dinamarquesa”, por exemplo, que buscava no real do corpo a validação de sua identidade feminina, Violet parece buscar essa validação na relação com o outro.

A sua insistência em se manter em um relacionamento sem amor com um homem e a relutância em viver o sentimento pela mulher por quem está apaixonada nos faz começar a entender seu conflito que, em uma das últimas cenas da temporada é, finalmente, expresso em uma pergunta para a amiga: “Você acha que gostar de uma mulher me faz ser menos mulher?”.

Curiosamente, percebe-se que o fato de ter ou não um pênis não se constitui para Violet como um fator que determinaria sua feminilidade, mas gostar de uma mulher, sim.

Em “Her Story”, a constituição da subjetividade feminina na transexualidade é abordada de maneira autêntica e genuína através de personagens bem desenvolvidos e tridimensionais, fazendo jus a complexidade da temática ainda que os seis episódios da temporada não somem mais de 60 minutos.

A série pode ser assistida através do site oficial: http://www.herstoryshow.com. Vale conferir.

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